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| Foto de placas |
A construção paralisada e superfaturada do prédio da nova biblioteca da Universidade Federal do Maranhão (Ufma) gerou indignação e outras denúncias nas redes sociais sobre obras abandonadas ou mal acabadas no campus do Bacanga, em São Luís.
Uma delas é o Núcleo de Artes, lançado com pompa e até placa da ordem de serviço, em 16 de dezembro de 2014, onde seriam instalados os cursos de Música, Teatro e Artes Visuais. Três anos depois, resta apenas um monte de escombros. A construção interrompida está localizada atrás do Centro de Convenções. Em 2015, a obra já estava paralisada em 26% do total, segundo o Relatório de Gestão da Ufma 2015, por falta de recursos. (veja aqui, na página 116).
A construção era de responsabilidade da Engepec (Engenharia, Gerenciamento, Planejamento e Consultoria Ltda), orçada em R$ 12.757.088,26 (Doze milhões, setecentos e cinquenta e sete mil, oitenta e oito reais e vinte e seis centavos), segundo o resultado da concorrência nº 14/2014, de 28 de agosto de 2014.
Segundo a Ufma, a Engepec recebeu um total de R$ 3.328.405,57 (Três milhões, trezentos e vinte e oito mil, quatrocentos e cinco reais e cinquenta e sete centavos) durante os primeiros dez meses de obra, entre dezembro de 2014 e outubro de 2015.
A promessa de construção do Núcleo de Artes e de outras obras teve papel fundamental na geração de expectativas durante o processo eleitoral para a Reitoria da Ufma, em 2015, embalando o sonho de um prédio onde haveria salas especiais, cinema, teatro, área para exposições e auditório, entre tantas outras espacialidades.
O desenho arquitetônico da obra tem o formato de um avião, mas apenas uma “asa” foi iniciada.
Segundo o professor do Curso de Música, Daniel Lemos Cerqueira, o projeto do Núcleo de Artes começou a ser elaborado em 2006, em uma convergência de interesses da Reitoria e do Departamento de Artes. O projeto inicial, no entanto, não atendia às necessidades que viriam a ser geradas nos cursos de Música, Teatro e Artes Visuais e passou por adequações. “Então essas demandas todas fizeram a gente rever o projeto e de novo a gente chamou o arquiteto, fizemos um documento com as adaptações necessárias e o projeto voltou para a administração da Universidade encaminhar a licitação”, detalhou Daniel Lemos.
As adequações ao projeto original foram sistematizadas no documento “Análise sobre o Projeto do Núcleo de Artes”. Apenas para o Curso de Música, deveriam contemplar os seguintes espaços: Laboratório de Pianos Eletrônicos; Laboratório de Violão; Laboratório de Percepção Musical, Harmonia e Análise (duas, devido à quantidade de disciplinas); Laboratório de Musicalização; Sala de Técnica de Expressão Vocal e Prática Coral; Sala de Prática de Conjunto; Laboratório de Regência Coral e Orquestral.
Os espaços e equipamentos descritos no documento “Análise sobre o Projeto do Núcleo de Artes” tiveram como subsídio os Referenciais Curriculares Nacionais, exigências ao funcionamento pleno dos cursos de Graduação em Música, tais como: Sonoteca; Sala de Informática Musical, com programas específicos da área; Estúdio de Música Eletrônica para gravação e manipulação de áudio; Almoxarifado ou Instrumentoteca; e Acervo Setorial.
Com a obra parada, os cursos de Música, Teatro e Artes Visuais seguem instalados no Centro de Ciências Humanas (CCH), em condições precárias. “A gente funciona de uma forma improvisada, porque conseguimos trabalhar nos espaços adaptados parcialmente. Quando a gente vai fazer uma apresentação musical não tem um auditório específico, com camarim e isolamento acústico. O pessoal de teatro consegue adaptar, eles fazem peças, performances teatrais com os espaços que estão lá, na ágora, eles se viram com os espaços disponíveis. Então a gente tem esse hábito de adaptar as nossas metodologias dentro das condições vigentes”, detalhou Daniel Lemos.
Segundo a professora do Curso de Teatro, Michele Nascimento Cabral Fonseca, a expectativa gerada pela construção do prédio transformou-se em frustração, vivida cotidianamente. “Eu dou aula no teatro de bolso, uma sala adaptada que o curso fez pela necessidade de ter um teatro. Ele fica de frente para o prédio inacabado, com a obra iniciada. Então todos os dias que eu vou dar aula eu olho esse prédio bem na minha frente. É uma expectativa grande e também uma frustração você ver que a coisa não anda”, lamentou.
Antes de ser professora da Ufma, Michele Cabral já acompanhava a reivindicação de artistas e professores que se apresentavam pela cidade e sempre que encerravam o espetáculo por vários espaços puxavam a palavra de ordem “por um teatro na Ufma”.
Diante da carência de espaços no CCH, algumas atividades do curso são ministradas no casarão Angelus Novos (localizado no Beco Catarina Mina), alugado pela Ufma. O casarão, acentua a professora, cumpre um papel importante no ensino e na extensão, mas o ideal é um prédio específico porque os cursos avançam na pós-graduação, têm pesquisadores reconhecidos e boa avaliação na Capes, mas a estrutura não acompanha o crescimento dos recursos humanos.
“Nós estamos atentos, queremos respostas, porque foi inaugurada uma placa, nós tivemos a presença do antigo reitor, as promessas foram feitas, nós criamos toda uma expectativa, a obra parou e nenhuma satisfação foi dada. Eu acho que o diálogo nesse momento é importante. Vivemos um momento de crise, de cortes profundos, mas a gente não sabe o que está acontecendo com o prédio de artes. Então está faltando um diálogo com toda a comunidade acadêmica que é envolvida e tem interesse. A gente precisa de respostas, de satisfação mesmo”, cobrou Cabral.
A sensação de euforia transformada em frustração foi aos poucos tomando conta dos professores e estudantes, como explica a coordenadora do curso de Artes, Regiane Aparecida Caire da Silva: “muitos alunos paravam a gente no corredor e falavam ‘ei professora a gente vai formar e não vai ver esse prédio’. Eu dizia ‘até eu vou aposentar e não vou ver esse prédio’. Virou quase uma piada, um sonho ceifado. A gente viu começar e brecou.”
Embora não tenha espaços adequados, há melhoras significativas dos recursos humanos em Artes. “Em 2014 tinham dois doutores, agora são seis doutores e três doutorandos. Teremos nove doutores no curso. Temos a ideia de fazer uma pós-graduação em Artes, inédita no Maranhão, focada nas práticas da licenciatura e também do patrimônio e restauro”, detalhou Regiane Caire.
Diante desse crescimento, o prédio do Núcleo de Artes é necessário para desafogar o CCH. “As disciplinas práticas, a minha de gravura, eu coloco 25 alunos já muito apertado, é difícil. A gente tem as prensas, a sala é compartilhada com outras disciplinas de Artes. Então se tem um trabalho em execução você tem de tirar porque vai vir outra disciplina e usar o mesmo espaço. E no prédio nós teríamos todas as salas só mesmo como ateliê, mais espaço com equipamentos e também a possibilidade de fazer a pós-graduação lá. Então iria valorizar muito o curso”, explicou Caire.
Em comum, professores e alunos queixaram-se do abandono da obra sem qualquer justificativa dos responsáveis à época da paralisação. Consultada pela reportagem, a Ufma emitiu uma nota (veja abaixo) informando que a obra foi paralisada por contingenciamento de recursos do governo federal.
NOTA DA UFMA
A Universidade Federal do Maranhão informa que a construção do edifício do Núcleo de Artes foi concebida para atender às necessidades do Departamento de Artes (DEART) da Instituição. A obra foi contratada por meio de Concorrência Pública, pelo valor de R$ 12.757.088,26, cuja empresa vencedora no processo licitatório foi a Engenharia Gerenciamento e Planejamento de Construções Ltda. — Engepec. A Ordem de Serviço para início das atividades construtivas foi assinada em 24 de novembro de 2014, prevendo, originalmente, um prazo de 18 meses para sua execução integral.
Durante os primeiros dez meses de obra (entre dezembro de 2014 e outubro de 2015), a contratada executou normalmente suas atividades. Pelos serviços efetivamente prestados durante esse intervalo, a empresa Engepec recebeu um total de R$ 3.328.405,57, liberados após medições periódicas.
No entanto, no dia 5 de novembro de 2015, a administração da UFMA foi levada a suspender, por um período de quatro meses, a continuidade da obra, em razão do contingenciamento de recursos financeiros advindos do MEC, vislumbrando uma possível melhora na conjuntura econômica do Governo Federal à época. Após esse prazo, os motivos que levaram à paralisação da obra continuaram, e a situação ficou mais agravada pelos sucessivos contingenciamentos. Por essa razão, a UFMA decidiu manter os serviços paralisados.
A Universidade Federal do Maranhão, por meio da Prefeitura de Câmpus, está analisando a elaboração de um cronograma para retomar a execução dos serviços, para que, tão logo haja disponibilidade dos recursos financeiros necessários, a obra possa ser reiniciada e finalizada.
Imagens: Marizélia Ribeiro
Informações do Do Blog do Edwilson
Disponível em: https://goo.gl/GH2yMr
